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Mu Carvalho sintetiza memórias em livro com alegrias e tensões de 'quintal' que abriga um vasto mundo musical
Mu Carvalho sintetiza memórias em livro com alegrias e tensões de 'quintal' que abriga um vasto mundo musical (Foto: Reprodução)

O pianista, compositor e produtor musical carioca Mu Carvalho relata a trajetória musical iniciada nos anos 1970 como integrante dos grupos Semente e A Cor do Som Divulgação ♫ CRÍTICA DE LIVRO Título: “Memórias sintetizadas” Autor: Mu Carvalho Cotação: ★ ★ ★ 1/2 ♬ Cabe um vasto mundo musical dentro do quintal de Maurício Magalhães de Carvalho, o compositor, pianista, tecladista, arranjador e produtor musical carioca conhecido artisticamente como Mu Carvalho. “Memórias sintetizadas”, a autobiografia do artista, é o resumo das alegrias e tensões vividas nesse quintal sem fronteiras desde que Mu – filho de mãe pianista e neto de avó também pianista de cinema mudo – pôs os pés na profissão de tocar o mesmo instrumento em 1973, como integrante do Grupo Semente, aos 16 anos. Em 1975, Mu deu o primeiro salto profissional. Foi o ano em que o músico foi convidado a integrar as bandas de Jorge Ben Jor e Moraes Moreira (1947 – 2020). A fama viria dois anos depois, em 1977, ano em que foi formado o conjunto A Cor do Som. Mu Carvalho é um dos integrantes desse grupo cuja música inicialmente instrumental e repleta de brasilidade pop abriu pioneira janela na música brasileira quando o mercado ainda estava fechado para o rock. Como tecladista e eventual vocalista d'A Cor do Som, Mu viveu as glórias e as desilusões de um popstar em turnês pelo Brasil. Contudo, findo o apogeu do grupo, o músico voltou a tocar com outros artistas – acompanhando nomes como o cantor Luiz Caldas, a banda Legião Urbana e a cantora Marina Lima – e viveu por um tempo a permanente incerteza financeira dos músicos que atuam como sideman e que ficam sem emprego ao fim de cada turnê. Mu Carvalho deixou essa incerteza para trás ao se abrigar no quintal da criação musical, se dedicando primordialmente à atividade de compositor contratado pela TV Globo. Mu fez nome como compositor de trilhas sonoras originais, fazendo em escala industrial os temas incidentais para novelas e programas da emissora, na qual entrou em 1994 por indicação do irmão, Sérgio Carvalho (1949 – 2019), e lá permaneceu por 28 anos. Todos os passos no mundo da música, dentro e fora da Globo, são repisados por Mu Carvalho em “Memórias sintetizadas”, livro de narrativa direta, objetiva, com foco quase jornalístico. Sem firulas e tampouco tentativas de mostrar estilo ou pretensões literárias, o texto foi organizado e editado por Paulo Jeibali a partir de relatos escritos por Mu ao longo de dez anos e também feitos pelo artista em conversas virtuais com Jeibali. E, justiça seja feita, o relato parece sincero e flui bem ao longo das 258 páginas do livro publicado pela editora Memorabilia. Por mais que uma autobiografia seja sempre a memória filtrada pela ótica pessoal do autor do livro, a narrativa de Mu soa crível. O artista expõe visão crítica da discografia do grupo A Cor do Som, por exemplo. Na medida em que o rock invadiu e dominou o mercado a partir de 1982, o grupo teve dificuldade para permanecer relevante e errou ao tentar seguir a onda desse mercado no álbum “As quatro fases do amor” (1983), se distanciando da própria natureza, como reconhece Mu no livro. Mais adiante, o artista relata a pressão sofrida pela banda em 1986 na gravadora RCA, quando o diretor artístico da companhia na época, Miguel Plopschi, sugeriu que A Cor do Som gravasse músicas da dupla de compositores Michael Sullivan & Paulo Massadas, então hegemônica no segmento da canção popular romântica. Diante da recusa dos músicos, o álbum “Gosto do prazer” (1986) foi lançado com desdém pela gravadora, o que precipitou a dissolução do grupo A Cor do Som em 1987. Em que pesem retornos pontuais, a volta definitiva da banda aconteceria somente em 2016. O suprassumo do livro de memórias de Mu Carvalho são as histórias de bastidores. O artista relata o equilíbrio delicado na relação com os diretores das novelas para as quais criou os temas incidentais da trilha original. Caso emblemático é o da novela “Chocolate com pimenta”, estreada pela TV Globo em 2003. O diretor Jorge Fernando (1955 – 2029) estava insatisfeito com as músicas que lhe propunham como tema de abertura da novela ambientada nos anos 1920. Ciente do impasse, Mu pediu autorização ao diretor musical da TV Globo na época, Mariozinho Rocha, para compor a música. Autorizado, Mu criou o charleston intitulado “Chocolate com pimenta”, letrado por Aldir Blanc (1946 – 2020) e aprovado imediatamente por Jorge Fernando. E o fato é que “Chocolate com pimenta”, a música, se tornou um dos dois maiores sucessos do cancioneiro autoral de Mu Carvalho. O outro é “Sapato velho”, música que Mu compôs na juventude com Claudio Nucci (o colega dos tempos estudantis e do juvenil Grupo Semente) e que ganhou letra de Paulinho Tapajós (1945 – 2013). Embora lançada em disco em 1978, em gravações de Tapajós e do grupo Quarteto em Cy, “Sapato velho” somente se tornou um sucesso da música brasileira ao ganhar as vozes do grupo Roupa Nova. Ao longo do livro, editado com capa dura e apresentado por textos do irmão Dadi Carvalho e de Gilberto Gil, entre outros nomes, Mu Carvalho explicita orgulho pelo cancioneiro autoral – que também destaca duas parcerias com Moraes Moreira, “Swingue menina” (1979) e “Semente do amor” (1980), ambas gravadas pela Cor do Som – e deixa entrever certo ressentimento por nem sempre ter sido devidamente valorizado como compositor. Envaidecido da obra construída na vasta caminhada, o artista detalha no livro o processo de criação de cada álbum feito com e sem A Cor do Som, revendo cada título da discografia solo iniciada em 1985 com o álbum “Meu continente encontrado” e desenvolvida ao longo de 40 anos. O último álbum solo, “O mundo é o meu jardim”, foi lançado em 2025 e sentenciou no título que, a partir do próprio quintal, Mu Carvalho viaja por mundo musical sem fronteiras, matéria-prima destas agradáveis “Memórias sintetizadas”. Capa do livro 'Memórias sintetizadas', de Mu Carvalho Divulgação