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Violências do colonialismo se repetem no presente, diz artista portuguesa Grada Kilomba, que traz obra de Inhotim para SP
Violências do colonialismo se repetem no presente, diz artista portuguesa Grada Kilomba, que traz obra de Inhotim para SP (Foto: Reprodução)

'O Barco' (2021), de Grada Kilomba. Vista de instalação no Instituto Inhotim. Brendon Campos. O cheiro de madeira queimada é a primeira coisa que se percebe ao entrar no Galpão do Sesc Pompeia, na Água Branca, Zona Oeste de São Paulo. Depois, vem a dimensão física: uma estrutura de madeira escura desenha no chão a silhueta do fundo de um navio. O visitante pode caminhar por dentro dela, entre peças que carregam as marcas deixadas pelo fogo. Mas a instalação "O Barco", da artista e escritora portuguesa Grada Kilomba, não foi pensada para ser um monumento a um passado distante. Para ela, a violência do tráfico transatlântico e do colonialismo que a obra evoca não é uma página virada — ela se repete, com novas roupagens, no presente. A obra monumental, que ocupa mais de 220 metros quadrados, entra em cartaz em São Paulo nesta terça-feira (22), após 28 meses no Instituto Inhotim, em Minas Gerais, e vai até o dia 25 de outubro. Segundo ela, que é autora de "Memórias da Plantação: Episódios de Racismo Cotidiano", livro de 2008 sobre racismo, colonialismo e memória, sua obra não quer falar apenas sobre a violência do passado, mas sobre a própria condição humana e sobre como beleza e violência podem coexistir. "O que me interessa, acima de tudo, é no trabalho ter uma noção da humanidade. E ter um diálogo entre as materialidades que eu questiono, que é a condição humana. E que nós temos a beleza com as obras absolutamente poéticas e belas, mas que também se podem tornar grotescas e violentas", afirma ao g1. Criado em 2021, "O Barco" é formado por 134 blocos de madeira queimada e recria a estrutura do fundo de uma embarcação, fazendo referência aos porões dos navios negreiros onde milhões de africanos foram transportados à força para as Américas. A obra passou por Lisboa e Londres antes de chegar ao Brasil. Em 2024, foi incorporada à coleção do Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG), o maior museu a céu aberto do mundo. Agora, começa uma nova etapa em São Paulo. Na última sexta-feira (18), Grada recebeu o g1 no Galpão do Sesc Pompeia. A instalação já estava montada, e a artista encerrava um dia intenso de entrevistas. A artista Grada Kilomba. Pablo Saborido O passado no presente A exposição em São Paulo reúne ainda duas obras mais recentes: "Opera to a Black Venus" e "Compressed Time", ambas de 2024. Elas ampliam a discussão de "O Barco" para além da história da escravização. No centro das obras está uma pergunta provocativa: o que o fundo do oceano nos diria amanhã se fosse esvaziado de água hoje? Para Grada, o oceano pode ser visto como um arquivo de histórias e corpos — não apenas daqueles que morreram durante as travessias do tráfico de africanos escravizados, mas também das pessoas que hoje sofrem com guerras, conflitos, violência e crises climáticas. “Isto não é uma obra do passado, é uma obra do presente. Eu trabalho com a temporalidade. Estes barcos que afundavam, estes espíritos que faziam a travessia transatlântica, também são os mesmos corpos que fogem e que, nas crises climáticas, nas violências, nos conflitos, nas guerras, nos homicídios atuais, são os corpos que caem também no fundo”, diz. É nessa relação entre diferentes épocas que a artista encontra o nó central de seu trabalho. “O passado apresenta uma coexistência de tempos. Em que os barcos que naufragavam durante centenas de anos são os mesmos barcos ou as mesmas pessoas que têm terras ocupadas, em que os minérios são extraídos, em que os petróleos são capitalizados, em que os corpos passam por genocídios, por massacres, por doenças étnicas." Obra viva Grada não quer que esse debate fique restrito ao plano teórico, mas que seja sentido fisicamente pelo visitante. Na instalação, o público pode entrar e caminhar entre os blocos de madeira, sentindo o cheiro do material queimado. “Grande parte das minhas obras são obras de grande escala. E interessa-me muito trabalhar com escala, grande, no sentido que são obras que abraçam o público. Que não são obras que são vistas de fora para dentro e objetificadas, mas que são obras em que o público entra", diz a artista. Por isso, ela diz que não espera uma reação específica de quem visitar a exposição. “Eu não tenho expectativa sobre o que as pessoas vão sentir ou ver. A mim interessa-me muito trabalhar com obras que vivem com o público. São obras que são experienciadas. Não são olhadas, são experienciadas.” A madeira também desempenha um papel poético central. Os blocos são queimados e, após o processo, cada um revela marcas únicas. “Na queima ela começa a revelar a sua identidade. E nós entramos nesta obra imensa com cento e tal peças e cada uma destas peças é única. Algumas começam a mostrar feridas e abaixamentos. Então tem toda essa poesia que a materialidade consegue trazer." Videoinstalação 'Opera to a Black Venus' (2024). Coniiin 'O Barco' em São Paulo Depois da temporada de 28 meses em Inhotim, a obra começa agora uma nova etapa na capital paulista. “Durante o tempo que o barco esteve em Inhotim, foi visitado por muitas pessoas que vinham de longe só para ver esta obra. Então nós compreendemos também que seria um gesto muito bonito levar a obra a vários lugares do Brasil.” Para Grada, porém, levar a instalação para outra cidade não significa simplesmente transportar a mesma obra de um lugar para outro. O espaço e o contexto interferem no que ela pode dizer. No Sesc Pompeia, por exemplo, "O Barco" precisou ser adaptado. A instalação tem 32 metros de comprimento e nem toda a estrutura coube no espaço expositivo. A artista vê nessa limitação uma relação inesperada com a própria história que está contando. “Os barcos aportavam em portos diferentes e vinham incompletos muitas vezes. De vários tamanhos, perdiam muitas pessoas pelo caminho. Então começamos a trabalhar na cenografia e na arquitetura com isso que chega a São Paulo, mas chega quase quebrado porque uma grande parte do barco não cabe cá dentro. Então uma parte do barco torna-se invisível.” Para ela, essa ausência também provoca uma reflexão sobre as histórias que chegaram até o presente — e sobre aquelas que ficaram pelo caminho. “Esta história, que é uma história tão violenta, também é uma história que deixou muitos corpos e muitas biografias por trás, que não chegava sempre completa e que nos faz questionar exatamente como é que a história chega aqui e como é que a história é contada aqui e quem ficou invisível neste caminho e nesta chegada.” Segundo a artista, essa transformação contínua acompanha a própria itinerância da obra: “Se nós sairmos daqui para um outro Sesc, numa outra cidade, com um outro espaço arquitetônico, esta obra vai contar a mesma história, mas uma história também diferente”. Serviço 📅 Quando? Até 25/10, de terça a sexta, das 10h às 21h; sábado, domingos e feriados, das 10h às 18h 📍 Onde? Sesc Pompeia | Rua Clélia, 93, Água Branca, Zona Oeste 💲 Quanto? Gratuito ➡️ Mais informações